Resenha #102 | Meio Mundo (Mar Despedaçado #2), de Joe Abercrombie | Editora Arqueiro



O momento que você fizer uma pausa será o momento de sua morte.

FANTASIA/FICÇÃO | 368 PÁGINAS | EDITORA ARQUEIRO | AVALIAÇÃO 5/5 + FAV ♥ | SKOOB


No primeiro volume da série, Meio Rei, nosso principal protagonista é Yarvi, um garoto que possuía uma das mãos defeituosa e que, por isso, sempre foi vítima de preconceitos e visto como fraco diante de todos. Yarvi era o próximo na linha de sucessão do Trono, mas seu desejo sempre foi tornar-se ministro. E diante de todas as dificuldades, ele renunciou o posto de príncipe – o que, para muitos, foi um alívio – e virou o pai Yarvi, ministro do rei de Gettland. Meio Rei é apenas a introdução de uma batalha que ainda nem começou.


Em Meio Mundo, segundo volume de Mar Despedaçado, nós temos novos personagens, novas histórias a serem descobertas e o início da preparação para a guerra que se aproxima. Nesse livro, Yarvi já é um homem sábio, que entende que Gettland precisa de aliados para combater o Rei Supremo e é por isso que realiza uma viagem para além do Mar Despedaçado enfrentando grandes perigos e ameaças com uma tripulação bem improvável formada por remadores, matadores, novos e velhos amigos, entre eles Thorn e Brand, a fim de conquistar alianças o mais rápido possível.

– Eu sou a tempestade.
– Por enquanto é mais uma garoa. Mas só estamos começando.

O que diz a sinopse é mais do que verdade, Thorn não tem nenhuma semelhança com as outras garotas de sua idade. Ela não é delicada, não preza tanto pela beleza e não sonha em se casar apenas para carregar uma chave. Mas é isso que a faz tão especial. O sonho de Thorn é tornar-se guerreira do rei, mas, em uma sociedade completamente machista, ela vai ter que enfrentar muita coisa.

E uma delas acontece no quadrado de treinos, onde é visto quem tem capacidade para lutar e quem não. Em um dos treinos, mestre Hunnan acaba colocando três oponentes para lutar contra ela – que, a propósito, era a única garota no grupo – e, no desespero, acaba matando um deles. Thorn então é julgada como assassina pelo homem que devia prepara-la para guerras e é condenada ao apedrejamento.

Durante semanas a observaram treinar como um demônio em todo tipo de clima, sendo derrubada e se levantando repetidamente até ficarem doloridos só de assistir. Durante meses tinham ido dormir embalados pelo choque das armas dela e acordado com seus gritos de guerra, em vez do crocitar de um corvo. Dia a dia a viram ficar mais rápida, forte e hábil.


Brand é o completo oposto da maioria dos personagens que estão focados em ir para a guerra. Essa também é sua meta, mas seu principal objetivo está em vencer e conseguir a recompensa para sustentar a si e a sua irmã. Ele sempre foi um garoto bom e generoso e, ao crescer, tornou-se um homem incrível, que tentava sempre manter-se na luz – este era o único pedido de sua mãe antes de morrer. Mas Brand viu todas as injustiças cometidas contra Thorn e foi pessoalmente avisar pai Yarvi. Alguns considerariam um grande erro, pois o mestre descobriu e fez questão de acabar com todas as chances do rapaz de ser um guerreiro.

Diante de todos esses acontecimentos, que pareciam levar tudo ao fundo do poço, as histórias de nossos personagens vão sendo traçadas. Por conta de Brand, pai Yarvi resolve intervir na vida de Thorn, a resgatando para fazer parte de sua tripulação. Thorn indica Brand como sendo um dos melhores lutadores do quadrado e, junto com diversos outros, esse trio parte pelo Mar Despedaçado, criando alianças, fazendo inimigos, sofrendo e, principalmente, matando.

   – Tenho a sensação de que você fez um inimigo – murmurou Brand, embainhando a adaga.
   – Ah, eu vivo fazendo isso. Como é que pai Yarvi diz? Os inimigos são o preço do sucesso. – Ela passou um braço pelos ombros dele, o outro pelo de Odda, e abraçou os dois com força. – O chocante é que, além disso, eu fiz alguns amigos.

Genteeeee! Se eu achei que Meio Rei era um ótimo livro, nem sei o que comentar sobre Meio Mundo. Quando comecei a ler, não fazia ideia do que me aguardava. Fiquei até nervosa por não saber quem era Thorn, pois achei que havia esquecido tudo o que aconteceu no volume anterior, hahah. Mas essa obra é daquelas que dá vontade de ler e reler e reler, porque sempre vai ter um detalhe diferente que vai chamar ainda mais a atenção do leitor.

O autor conseguiu me prender completamente durante a leitura, tanto que quando estava lendo, não lembrava de fazer outras coisas e, quando precisava largar o livro, só pensava na história. Todos os personagens são cativantes, até os inimigos, pois todos foram criados de maneira impecável. Pai Yarvi está apaixonante. Em Meio Mundo, o ministro precisou usar de toda sua sabedoria e estratégia para tentar sempre estar um passo á frente do adversário – o que nem sempre era possível.

– Um guerreiro não tem medo.
– Um idiota não tem medo. Um guerreiro fica de pé apesar do medo.

Thorn e Brand estão entre os mais fascinantes, cada um com suas características e peculiaridades beeem diferentes. Se Brand tentava sempre manter-se na luz, sempre buscando a paz em um mundo de guerras, Thorn era a verdadeira morte em pessoa. Ela batalhou muito para chegar onde chegou. Enquanto todos riam por ela ser uma mulher tentando ocupar o cargo de homens, a garota treinava arduamente com a feiticeira Skifr, que foi incumbida da tarefa de torna-la mortal. Se Thorn levou um soco que a deixou no chão, ela levantou-se e desferiu dois contra o oponente. São várias as citações que mostram sua garra e determinação.

Eu sei que a resenha já está enorme, mas simplesmente não consigo falar pouco sobre uma obra que tanto significou para mim. De uma maneira bem direta, Joe Abercrombie introduziu em sua fantasia um dos temas que mais tem gerado discussões na atualidade: a desigualdade entre homens e mulheres nas mais diversas situações.

Muitos queriam colocar Thorn para baixo, dizendo que ela devia estar costurando ou cozinhando ao invés de fazer parte de uma tripulação. E, de fato, muitas vezes somos induzidos a acreditar que esse cenário de guerras pertence apenas aos homens por estes serem “mais fortes”. Thorn treinou e batalhou e acabou sendo melhor que muitos, inclusive mestre Hunnan, que foi quem desencadeou tudo. Cresceu e conquistou coisas que nenhum deles foi capaz de conquistar enquanto estavam sentados, rindo de seus objetivos.

– Olhe só para você. – Rulf parou de amarrar a corda de proa para balançar a cabeça careca, espantado. – É difícil acreditar como você cresceu desde que se sentou no meu remo de popa. E não apenas no tamanho.
– De menina para mulher – disse pai Yarvi, descendo do Vento Sul.
– De mulher para heroína – completou Dosduvoi, tomando Thorn num abraço esmagador.

Mas nem todos estiveram debochando dela. Sua tripulação, apesar de no início não acreditar no que estava acontecendo, deu cada vez mais apoio à garota. Eles acompanharam todo o processo de treinamento de Thorn e Skifr, a viram cair, mas também contemplaram sua ascensão. Puderam sentir na pele que ela não estava lá para brincar e não dava nenhuma importância aos que não acreditavam nela. Thorn conquistou respeito, fez amigos e deu lugar até a uma paixão que aflorou no navio – coisa que nunca pensou que aconteceria com ela.


Enfim, não sei se todos leram até aqui, hahah. Mas, se sim, espero que você tenha entendido pelo menos um pouco de tudo o que essa série tem a oferecer. Para quem souber interpretar, Joe tem uma grande mensagem para passar a cada um de seus leitores. Eu falei bastante de Thorn porque, para mim, foi o ponto mais forte do enredo, mas todos os personagens tiveram grande importância. A presença de Brand foi vital para que Thorn se permitisse ser uma pessoa melhor e, junto com todos os outros, eles foram aprendendo e achando seu lugar no mundo.

Ela não era nem de longe o campeão que eles escolheriam, mas ainda assim era a campeã de Gettland.

Nem preciso falar que o trabalho da Editora Arqueiro ficou um espetáculo, né? Essa capa representa tudo o que é apresentado no enredo. Os capítulos são nomeados e não numerados e sempre tenho medo quando é assim, porque se o título não for bem elaborado, pode entregar toda a história. Já passei muito por isso, infelizmente. Mas a cada título que eu lia, ficava ainda mais ansiosa para continuar lendo. Ainda não sem bem o que fazer agora que a história acabou a não ser esperar a continuação. Espero que tenham gostado da resenha e, de verdade, desculpe por falar tanto! x)

Comentários

  1. Ola
    Essa é a primeira resenha que leio sobre esse livro, mas já conhecia sobre o anterior, e fiquei bem curiosa sobre os elementos destacados. Confesso que antes não tinha dado uma atenção especial a essa série, mas agora que compreendi um pouco da trama, acho que parece ser uma boa leitura. Vou procurar mais informações. Sabe quantos títulos da série são?
    Beijos, F

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oie! Essa leitura foi de grande importância para mim e nem sei explicar o quanto aprendi com ela. É uma leitura que sem dúvidas vale a pena. Sobre o número de livros, até agora foram divulgados três pela Arqueiro, não sei dizer se terão outros futuramente, mas acredito que não.

      Beijos!

      Excluir
  2. Oii tudo bem??

    Já havia lido sobre o livro anterior, mas não sobre a continuação.
    Apesar de ter gostado, não sou o tipo de pessoa que lê esse estilo e não consigo ter interesse. Adorei a resenha.
    Bjus Rafa

    ResponderExcluir
  3. Olá, sua resenha me fez ficar com uma vontade enorme de ler esse livro! Acho que já havia visto uma resenha do primeiro livor, mas a sua me permitiu entender melhor o cenário da trama. Achei muito bacana a obra abordar essa jornada da garota para ser o que ela realmente quer, mesmo que muitos não acreditem nela, assim como também é interessante o outro personagem que busca se manter na luz.

    ResponderExcluir
  4. Sua resenha está tão entusiasmada! O livro parece ótimo,recentemente li um conto desde mesmo autor e percebi que ele possui uma escrita que cativa e prende o leitor,realmente muito bom,quando desafogar minha lista de leitura,vou dar uma olhada nesses.

    ResponderExcluir
  5. Eu só conhecia o livro que antecedeu este aqui, mas adorei ver o quanto a leitura agregou para você Quero ler também e te ruma experiencia parecida.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

    ResponderExcluir
  6. Oiii,

    Eu já tinha lido algumas coisas sobre a serie, mas sem duvida nenhuma posso dizer que não li nenhuma resenha tão empolgante quanto a sua rs. Me despertou curiosidade toda esta empolgação, o fato de ficar pensando na história quando tinha de largar o livro e a maneira como você se enredou na história. Fiquei bem curiosa e já coloquei a série na listinha.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com/

    ResponderExcluir
  7. Oi!
    Já tinha visto esse livro por aí mas nunca li uma resenha.
    Adorei saber mais sobre a história e adorei A HISTÓRIA, pois amo uma fantasia épica cheia de guerra e personagens fortes.
    Pela sua empolgação dá pra perceber que a série é realmente boa e vale a pena ser lida

    ResponderExcluir
  8. Olá!

    Essa é a primeira resenha que vejo sobre esse livro e fico pensando: Pq nunca parei para saber mais sobre ele antes?

    O enredo parece ter tudo o que me interessa, amo fantasia ! amei a capa! amei sua resenha! Obrigada pela dica!

    Beijos
    Jess
    www.pintandoasletras.com.br

    ResponderExcluir
  9. Eu li até o final, e sim, eu entendi o que ela tem a oferecer. Hahahaha

    Eu só não leria porque não curto muito fantasia, ainda mais.medievais. Sou do tipo que curte mais histórias reais, que podem acontecer com qualquer um de nós, sabe? A única fantasia que me conquistou até hoje foi HP, e olha que já tentei várias.
    Mas fico contente por você ter curtido tanto e até favoritado!!

    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Oi, tudo bem?
    Onde eu estava que nunca ouvi falar dessa série?
    Nunca vi um livro de fantasia trazendo esse questionamento da desigualdade de gêneros, achei mega interessante, até porque, nesse tipo de livro, geralmente o protagonista super poderoso é um homem né? Muito legal essa visão da obra.
    Eu não curto fantasia, mesmo, mas achei esse ponto muito interessante e original. Beijos!

    ourbravenewblog.weebly.com

    ResponderExcluir
  11. Olá!
    Os elementos destacados neste livro são super interessante.
    Saber que ele traz a desigualdade de gênero em um livro de fantasia foi uma tacada de mestre do autor!
    Primeira vez que vejo isto

    ResponderExcluir
  12. Amei o post! Como eu disse na minha resenha, gostei muito da protagonista e da forma como ela foi construída! Amei a enxurrada de referências ao primeiro livro e, claro: Yarviii! *-*

    Abraços.
    Alex, do Um Bookaholic. <3

    umbookaholic.com | Canal | @umbookaholic: Twitter | Instagram

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha #124 | China de Papel, de Fabiano Lima