Resenha #94 | O Homem de São Petersburgo, de Ken Follett | Editora Arqueiro


Feliks parou na entrada para pôr o chapéu. Olhou para si mesmo no espelho, o rosto contorcido num sorriso de triunfo selvagem. Controlou a expressão e saiu para o sol do meio-dia.

FICÇÃO | 336 PÁGINAS | EDITORA ARQUEIRO | AVALIAÇÃO: 4/5 | SKOOB


Neste enredo, nosso cenário fica na Inglaterra, no ano de 1914, mais precisamente durante os acontecimentos que antecedem um dos fatos mais marcantes da história: a Primeira Guerra Mundial. Uma época repleta de tensões, onde cada país ainda decidia quais seriam suas alianças durante a batalha que ceifou a vida de milhões de pessoas.


A Alemanha possui um forte exército e planeja atacar a França, aliada da Inglaterra. Os ingleses sabem que suas chances não são boas e, para evitar que a Europa seja subjugada pelo outro país, será necessária grande ajuda. A Rússia é o alvo de planos de batalha e alianças para a guerra. Walden é um experiente estrategista, respeitado pelo rei, que possui conhecimento do território russo. Por isso ele recebe a visita de Winston Churchill, que o convence a negociar um acordo secreto entre as duas nações através do príncipe Aleksei Orlov – que, a princípio, é sobrinho de sua esposa russa, Lydia.

 Charlotte se recusa a ver as coisas como elas são.Eu detestaria que ela se tornasse uma moça cínica.Stephen não queria preocupar-se com isso. Espere só até um belo oficial da Guarda lhe despertar a atenção. Ela não vai demorar a mudar de ideia.O comentário irritou Lydia, pois insinuava que todas as mulheres eram escravas de sua natureza romântica. [...] Lydia, entretanto, sabia que a filha possuía algum elemento selvagem e nem um pouco inglês em sua natureza, algo que teria de ser reprimido.

Paralelo a isso, a Rússia tenta uma revolução contra seu atual governo, uma vez que este cada vez mais provoca a morte de sua população através da fome. No meio disso, encontramos Feliks Kschessinsky, um determinado anarquista que se infiltra na Inglaterra com o plano de impedir o acordo entre nações através do assassinato do príncipe. Seu objetivo é impedir que jovens russos despreparados sejam enviados para morrer em uma guerra que em nada se relaciona a eles. E esse é apenas o início dessa trama, que sofre diversas reviravoltas por conta de segredos do passado que acabam ligando-se em algo surpreendente.


Essa foi uma leitura um pouco lenta para mim, mas de uma maneira positiva. Digo, essa obra possui diversos acontecimentos históricos que merecem uma leitura calma para melhor compreensão. Eu demorei para ler porque saboreei cada palavra, cada página escrita pelo autor.

Um dos fatos que mais achei interessante foi o fato de o autor atentar para as dificuldades que as mulheres enfrentavam através da filha de Walden, a Charlotte. Em muitos momentos a garota percebe que é deixada de lado em determinados assuntos e, quando descobre, através de uma amiga, algumas das respostas que desejava – como, por exemplo, a forma como as crianças são geradas (nem isso contavam para as garotas – e ela tinha 18 anos) – ficou indignada por saber que seus pais a deixaram crescer na ignorância.

– Acha que as mulheres deveriam votar? – Perguntou (Charlotte).Mas as respostas foram desanimadoras.– Claro que não.Ou então:– Não tenho opinião a respeito.E ainda:– Você não é uma delas, não é mesmo?

Através de Charlotte também descobrimos a causa das sufragistas, mulheres que lutavam por mais direitos e melhores condições, que lutavam para que o voto fosse igualitário em uma época onde somente os homens possuíam essa opção. Essas mulheres, que só queriam melhores garantias de vida, eram repudiadas e vistas como motivo de vergonha pela sociedade – por conta daquelas que protestavam com rebeliões, destruindo vitrines e protestando publicamente (inclusive na frente do rei). Foi muito legal ver Charlotte se interessando pelo assunto e buscando saber cada vez mais.

Há tempos eu queria saber mais sobre a escrita de Ken Follett e conhecer essa obra foi algo ótimo. Eu já sabia que muitas obras dele são inspiradas em momentos históricos – aliás, ainda quero muito ler As Espiãs do Dia D – e isso me deixou ainda mais empolgada para me aventurar em suas criações.


Na Sibéria, aprendera muito sobre a vida: roube ou passe fome, esconda-se ou seja espancado, lute ou morra. Lá, adquirida astúcia e brutalidade e passara a conhecer a suprema verdade sobre a opressão: que ela funciona quando se jogam as vítimas umas contra as outras em vez de jogá-las contra os opressores.

Os personagens são magníficos. Todos eles possuem características fantásticas e é impossível não se encantar. Charlotte acabou por se tornar minha favorita pelos motivos que já citei. Quando ela descobriu que havia muito mais no mundo além das paredes de sua casa, como pessoas morando na rua e mulheres sendo obrigadas a comer de forma horrenda durante as greves de fome para conquistar o que desejavam, a garota se jogou para conhecer tudo. Até mesmo Feliks nos surpreende, pois apesar de ser descontrolado, é fácil entender seus objetivos.

É uma leitura que com certeza eu recomendo, pois é sensacional acompanhar o desenrolar de todos esses acontecimentos. Também é incrível descobrir que, nessa história, ninguém é o que parece. A edição da Arqueiro ficou muito linda. Esse livro já foi lançado por outras editoras, mas eu amei essa capa. A única coisa que me incomodou um pouco foi o fato de os capítulos serem muito longos, mas isso é algo que dá para acostumar ao longo da leitura. :3

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