Resenha #85 | O Evangelho de Loki, de Joanne M. Harris | Bertrand Brasil


Nunca confie em ninguém.
ROMANCE/FANTASIA | 336 PÁGINAS | BERTRAND BRASIL | AVALIAÇÃO: 5/5 | OFERTAS | SKOOB


Muitos fatos dessa história já são de nosso conhecimento, mas acabamos por descobrir, de forma única, que desconhecemos diversos detalhes vitais da história. Em O Evangelho de Loki, conhecemos a verdadeira história. Todos os acontecimentos são narrados em primeira pessoa pelo próprio Loki, o trapaceiro, o que torna tudo muito mais divertido. Durante todo o enredo, é como se estivéssemos conversando sobre seus principais pensamentos, ideias, sentimentos... Muitas vezes parece até que estamos lendo o desabafo repleto de rancor despejado em um diário.

Vi que era um martelo de guerra; pesado, brutal e carregado de encanto, do nariz à ponta de seu cabo... um cabo que era um tanto curto, a única falha em uma arma que até eu conseguia avaliar como inteiramente única; única e unicamente cobiçável.
– Esse é Mjölnir – disse o artesão, com um rosnado. – O maior martelo já forjado. Nas mãos do Deus do Trovão, protegerá toda Asgard. Jamais sairá de seu lado, sempre o servirá com excelência.

Embora Loki deixe claro que nada possui um início ou um fim definitivo, para nós a história começa no Caos, moradia do trapaceiro antes de tudo. Ele era prole de uma pilha de galhos secos – sem metáforas – e de um relâmpago. Loki nunca precisou de um nome, apesar de o ter, e nunca teve a necessidade de mudar sua forma original, o Incêndio, até ter sua presença rogada por Odin, que o aguardava cheio de propostas – e trapaças.

Sem ao menos perceber, ele prova um pouco do próprio veneno ao ver-se diante de um convite irrecusável tramado por Odin, o sábio; Loki seria transformado em um deus, teria o poder de tomar as decisões em Asgard, ganharia liberdade fora do Caos, seria irmão de Odin. Ele só precisaria ajudar com seus dons. A partir disso, Loki passa a tentar de tudo para agradar a todos, desde presentes úteis e bem elaborados a ótimas trapaças para dar benefícios a Asgard. A fúria começa quando ele é alvo de uma traição que acaba do pior jeito e percebe, de uma vez por todas, que nunca estará entre os grandes deuses.


Não é engraçado como as coisas mudam rápido? Nove pequenos pontos foram tudo o que precisei para, de repente, me dar conta da verdade: que não importaria o que fizesse, arriscasse ou o quanto tentei fazer parte, eu jamais seria um deles. Jamais possuiria um salão ou ganharia o respeito que tão claramente merecia.

Eu gostei muito de ter conhecido a escrita da autora e os fatos que ela mostrou. Sempre tive curiosidade em conhecer a mitologia nórdica e essa foi uma oportunidade incrível. A experiência valeu super a pena. Sempre gostei do personagem de Tom Hiddleston nos filmes, mas O Evangelho de Loki traz uma história bem diferente e muito mais legal. É impossível não torcer pelo personagem, mesmo com tudo o que ele faz e que, várias vezes, discordamos.

Todos os personagens ganham uma nova visão para mim. Durante toda a história, Odin usa de suas artimanhas para conseguir o melhor para si e para Asgard, não dando importância para o que isso possa acarretar para Loki. Thor é o guerreiro imponente que se joga para o perigo, estraçalhando qualquer inimigo com sua força. Heimdall, guardião da ponte Bifrost que liga todos os mundos, continua sendo o personagem que gosto, sempre desconfiado de Loki e expressando a insatisfação por ter alguém de sua laia no reino dos deuses. E, por fim, o personagem principal, que em muitas cenas é até engraçado devido a inocência que parece carregar nas primeiras páginas. Esses e outros personagens se mostraram magníficos.

"Um dia é da caça, outro do caçador", como diz o antigo ditado dos Reinos Médios. Cada caça e cada deus, e agora eu começava a ansiar pelo dia em que nossos papéis seriam trocados, e eu, aquele que olharia para todos eles de cima, enquanto imploravam e choravam. [...] O poder sempre vem com um preço, e quanto mais alto se escala, maior é a queda. Eu pretendia arquitetar aquela queda e gargalhar enquanto tombavam.

A história vai muito além do que falei nessa resenha. O livro contém diversas reviravoltas, fúrias, vinganças e aventuras. Joanne M. Harris arrasou em todos os elementos que compõem a obra, nos prestigiando com uma leitura fluída, que conquista em todas as páginas, nos deixando com vontade de descobrir cada vez mais os segredos dos personagens e quem eles realmente são. O sentimento de interação com o personagem torna difícil a tarefa de largar o livro antes de chegar ao final. Do começo ao fim somos apresentados aos ensinamentos de Loki, que são, basicamente, nunca confiar em ninguém. Em cada capítulo ele cita algo sobre isso durante sua permanência em Asgard.

A primeira coisa que chamou minha atenção para essa obra entre os lançamentos da editora foi o título e, posteriormente, a capa. A versão brasileira é idêntica à original, diferenciando apenas a tradução do título, mas isso não tira o esplendor de cada elemento da composição da capa. As ilustrações retratam o cenário que encontraremos ao decorrer da história, com o palácio ao longe, o desenho de Yggdrasil, a árvore da vida – ou ao menos imagino que seja ela :o – e algumas características dos outros povos. No início do livro, temos uma lista com o nome dos principais personagens e uma pequena descrição bem empolgante feita pelo próprio Loki. Os capítulos são divididos por livros e cada um dos livros começa com a Profecia do Oráculo, assim como os capítulos iniciam com trechos de Lokabrenna, versão com os evangelhos de Loki.

Comentários

  1. Hum, curti!
    Pretendo presentear um amigo com esse livro, ele adora mitologia nórdica.
    Minha praia é Ficção cientifica. parabéns pelo blog.

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